quarta-feira, 15 de maio de 2013

Jacques Ellul por Regina Santos Young

Texto produzido pela então doutoranda Regina Santos Young ao cursar a disciplina em 2008


Livro: A técnica e o desafio do século 
Autor: Jacques Ellul Resenha: Capítulo V - As técnicas do homem


No texto “As técnicas do Homem” Jacques Ellul discute como as técnicas modificaram a vida do ser humano, abrangendo não somente a dimensão de sua vida produtiva, mas todas as outras dimensões na sociedade moderna européia. O autor radicaliza essa influencia colocando o homem como objeto da técnica. É importante destacar o contexto histórico vivido pelo autor, num período em que as grandes guerras mundiais trouxeram reflexões profundas sobre a dominação, o poderio bélico e as mazelas do pós-guerra.
Na sociedade moderna a vida humana foi fortemente modificada por uma nova forma de organização baseada numa concepção da técnica enquanto respostas para os problemas sociais. A técnica traria ao homem a sua libertação racionalizando e especializando as atividades básicas, como por exemplo, o trabalho. No entanto, o trabalho nas fábricas racionalizados de forma extrema pelo Taylorismo, é um dos exemplos clássicos de como a técnica pode trazer malefícios para ser humano. Ellul chama atenção para as técnicas na área da psicologia que tinha o intuito de atingir a moral dos sujeitos para que estes pudessem suportar as terríveis condições de vida trazidas pela exploração de seu trabalho tirando-lhe o máximo possível.
O contexto social mais amplo é também modificado pela técnica quando as máquinas passam a entrar na casa das pessoas modificando os hábitos e costumes. Através dos meios de transporte permitiu o contato com diferentes países e a conquista de novos espaços a tal ponto que não existe mais lugares solitários. Outra máquina importante nesse contexto foi o relógio que permitiu a racionalização e controle do tempo na modernidade trazendo mudanças ainda maiores para as atividades cotidianas.
As mudanças advindas com a técnica foram tão profundas que criaram um novo ambiente social exigindo do homem um esforço para adaptação nesse novo contexto. Quando não ocorre essa adaptação dentro da normalidade desenvolvem-se as neuroses e doenças psíquicas. Isso ocorre porque o novo ambiente consistia num ambiente desumano de exploração física e psíquica dos sujeitos.
Ellul considera que a massificação é um fenômeno que marcou a sociedade através de seus instrumentos e meios de comunicação de massa que trouxe uma característica de coletividade, trazendo como conseqüência o controle e a massificação das informações.
Diante dessas questões problemáticas e complexas seria preciso o desenvolvimento de estudos que pudessem da conta dessa realidade em favor da libertação do homem frente ao domínio da técnica. Assim autores teorizaram sobre as “técnicas do homem” que trariam as respostas para essas inquietações, propondo que as mazelas trazidas pelas técnicas deveriam ser respondidas pelas próprias técnicas, mas as técnicas “do homem”. Segundo o autor essa possibilidade é muito reduzida, pois é impossível falar de humanismo técnico.
Nesse sentido todas as ações humanas e sociais se desenvolvem baseados em procedimentos técnicos, principalmente na utilização de métodos métricos que podem racionalizar e tornar os processos mais eficazes comprovados cientificamente. O autor destaca esses processos técnicos desenvolvidos para atuar nos seguintes âmbitos sociais que pretendem adaptar o homem ao seu meio social: escola, trabalho, orientação profissional, propaganda, no divertimento, no esporte, na medicina.
Apesar da visão chocante e determinista que o autor apresenta não podemos deixar de observar que muitas de suas argumentações e críticas são coerentes e trazem contribuições para a compreensão de muitos fenômenos sociais influenciadas pela racionalidade técnica até os dias atuais. Podemos destacar:
- O excesso de especialização das áreas do conhecimento que são fortemente fragmentadas pela racionalização.
- Os problemas e neuroses que até os dias atuais fazem parte de uma sociedade em constantes transformações técnicas e tecnológicas.
- A influência dos meios de comunicação de massa para formação de opinião e convencimento e sugestão, principalmente na utilização de técnicas na área da psicologia.
- Os métodos desenvolvidos nos processos educativos formais que trazem muitos aspectos herdados de uma racionalidade técnica e de socialização.
Uma das críticas que podemos desenvolver frente à argumentação do autor consiste na radicalização da idéia que a técnica domina o homem sem que este possa se libertar e pensar criticamente, mas somente reproduzir o que está posto sem possibilidade de superação. Enquanto educadora pensar dessa forma não nos permite uma prática educativa crítica e libertadora. Apesar de ser um processo difícil acredito que não é impossível. 
Outra questão refere-se à concepção de técnica apresentada pelo autor, temos a impressão de ser algo com uma vida própria, algo monstruoso que não foi produzido e criado pelo homem. Afinal, a técnica acompanha toda a vida humana desde as comunidades mais primitivas ajudando-o a compreender a natureza e sua relação com os outros homens. É bem verdade que sempre existe o risco de utilização da técnica para dominação e degradação da natureza como verificamos em nossos dias, mas reduzi-la a isso não nos permite ver iniciativas que ajudam a manter a vida humana.
Por fim, as idéias trazidas pelo autor nos fazem refletir sobre o processo de mudanças advindas com os artefatos tecnológicos de nosso tempo que rapidamente estão evoluindo e que trazem desafios jamais imaginados, principalmente com as relações sociais desenvolvidas no ciberespaço.

3 comentários:

  1. Os pontos destacados pela Regina sobre as argumentações do Ellul são no meu entendimento os mais relevantes, bem como a pertinência das considerações da autora quanto as críticas e contribuições do Jacques Ellul nas pesquisas atuais que buscam refletir criticamente acerca das técnicas e suas relações múltiplas m processos educativos e formativos desenvolvidos na contemporaneidade.
    Neste sentido, buscando a dialética das relações e percebendo o "espirito dos tempos" gostaria de estabelecer uma relação crítica para problematizar o modismo da colaboração que temos visto ser difundido através dos estudos da cibercultura e da Ead, em muitos casos com pouco aprofundamento das suas implicações.
    Na pág 329, Ellul(1968) destaca que o homem está sempre "no limiar da ruptura, do desmoronamento e que para não retroceder precisa de uma força psíquica que não encontra em si mesmo. Não encontrando em si o autor complementa que é necessário "fornecer-lhe um alimento que vem de outra parte". Este processo envolve toda uma rede de ideologias, alienações e hegemonias que são estimuladas e podem ser apreendidas pelos sujeitos.
    Na sequência vemos uma analise crítica as técnicas que envolvem o homem e o trabalho através da cadeia. Em seu exemplo demonstra como os estímulos psicológicos parecem se tornar espontâneos e porque não falar naturais das condições de vida.
    Vejamos o exemplo na integra:
    " ... quando todos os operários que trabalham nessa cadeia concluíram seu trabalho, mas um deles, cansado ou descontente, é retardatário, a cadeia pára e todos os operários são obrigados a esperar. 'O retardatário vê que é impede seus camaradas de trabalhar, de perceber o salário ao qual podem pretender; sente-se culpado em relação a eles e esse estimulo psicológico o obriga, mesmo contra ele, contra seu desconto e seu cansaço, a retornar o rimo coletivo (Friendmann)”

    Passo então a questionar e refletir: Qual a diferença destes mecanismos de dominação para os atuais? Quando proponho um trabalho colaborativo percebo estes mecanismos que entrelaçam as relações de poder nas ações ditas com vista a uma meta comum? Em quais momentos considero as diferenças, as divergências, ritmos, objetivos distintos que parecem ser anulados por uma perspectiva de coletivo?

    Em primeiro momento quero destacar que estas são questões que gostaria de discutir com vocês, não tenho respostas prontas, (rsrssrs). A única constatação no meio destas minhas incertezas é que não quero ter uma visão ingenua de modelos educativos e formativos para “libertar” os sujeitos.
    Minhas primeiras reflexões a este respeito buscou fazer uma diferenciação entre as categorias cooperação e colaboração, pois durante a escrita da dissertação percebi que estas eram muitas vezes usadas como sinônimos tanto na literatura como nos discursos da universidade, assim passei a entender que “a cooperação, de fato, envolve um trabalho comum, tendo em vista um objetivo
    comum que se sobrepõe aos desejos coletivos, mas apenas mascara a
    competitividade inerente à lógica capitalista. Concorrência e corporativismo
    continuam a existir, embora cedam lugar à práticas mais efetivas, isto é, estratégias
    menos individualistas que são toleradas com o objetivo de garantir a manutenção da
    lógica capitalista subjacente. Colaboração, entretanto, supõe a contribuição entre
    pares que buscam desenvolver estratégias e solucionar problemas por processos
    cognitivos provenientes das interações e relações dialógicas-dialéticas nas quais as
    diferenças e contradições são postas à vista. Colaboração implica necessariamente
    a ruptura com a busca de hegemonias de qualquer espécie e a construção de
    propostas coletivas: só a colaboração viabiliza a existência concreta de coletivos
    inteligentes.”
    Trago estas inquietações para discutir com vocês

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  2. Ótima problemática. Importante lembrar que o contexto de um processo de aprendizagem em que se situa tal colaboração nos permite focar melhor essa análise. Considerando-se que 1) a proposição e o desenho da atividade colaborativa foram co-construídos entre professor e alunos e que 2) os alunos conseguem compreender que o engajamento nessa atividade colaborativa representa um ganho de aprendizagem, podemos passar ao nível de análise seguinte. Trata-se de uma ação de colaboração em rede em que, preservados os objetivos da atividades, os alunos dispõem de diversas alternativas para exercerem sua autoria crítica aberta e criativa (um podcast em formato de RAP postado em um blog, por exemplo) que não pressupõe uma síntese limitadora, mas permite acomodar a diversidade de pensamento e de fazeres dos autores/atores.

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  3. Um bom resumo da "ideologia" na cibercultura -- o ciberpunk -- segundo Lemos -- http://revistacult.uol.com.br/home/2010/03/cibercultura-punk/

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