Texto produzido pelo aluno ouvinte Paulo Roberto Melo de Castro Nogueira ao cursar a disciplina em 2008
A
TÉCNICA E O DESAFIO DO SÉCULO
JACQUES
ELLUL
RESENHA
CRÍTICA
A obra “A Técnica e o Desafio do Século” trata sobre as
técnicas que se dirigem diretamente ao homem e que se constituíam
para muitos, na época em que o autor escreveu, 1954, no objeto das
grandes descobertas, das grandes esperanças.
Para o autor, filósofo, sociólogo, teólogo e anarquista cristão,
Jacques Ellul, nascido em Bordeaux, na França, em 6 de janeiro de
1912 e falecido em 19 de maio de 1994, pode-se
resumir dizendo que a técnica comporta sua própria ideologia, e que
toda realização técnica engendra suas justificações ideológicas.
Acredita que por meio de uma modificação psicológica, pode-se,
pois, ao mesmo tempo, tirar do homem um maximum e conseguir que
suporte alegremente os inconvenientes do mundo - primeiro objetivo
das técnicas psicológicas. Trata-se de obter um rendimento. É a
lei técnica e este rendimento só pode ser obtido pela mobilização
total do homem, corpo e alma, o que supõe uma mobilização de suas
forças psíquicas.
A técnica já penetrou profundamente no homem. O homem é feito para
seis quilômetros à hora e faz mil. O autor observa adiante que a
máquina ao mesmo tempo enriquece o homem e o modifica. Os sentidos e
os órgãos da técnica multiplicaram os sentidos e os órgãos do
homem. O estudo feito por Ellul analisa que a técnica modificou
também o tempo dos homens. O tempo, que era medido pelas
necessidades e acontecimentos, torna-se abstrato e separado dos
ritmos da vida e da natureza, passa a ser dividido em horas, minutos
e segundos. A massificação da sociedade provoca um clima de
ansiedade e de insegurança, característico da época e das neuroses
vividas. Porém, a proposta de humanização das técnicas passou a
levar o homem em conta para que o mesmo não seja esmagado pela
técnica.
Os experimentadores encontraram um campo de ação particularmente
notável para a experimentação técnica: o exército. No exército
os laços sociais que se formam são originais, a coletividade a
estudar pode ser apreendida desde o começo e é cômodo para
estudar, para acompanhar o dia a dia. Ao mesmo tempo, as experiências
feitas servem a um duplo fim: de início, influenciam-se diretamente
os homens que estão no exército e estes transportam para a vida
civil a marca que receberam.
Procura-se também, naquele momento, desenvolver uma nova pedagogia,
uma série de técnicas, chamadas técnicas da escola nova. Um dos
fatores profundos dessa educação será, a melhor adaptação
possível à sociedade, apesar de todas as declarações possíveis
não é a criança em si mesma, e para ela mesma que é formada: é a
criança na sociedade e para a sociedade. Não
se trata de uma preparação para uma sociedade ideal, mas para a
sociedade tal como existe.
A técnica do trabalho é percebida também nos modelos Taylorista e
Fordiano, que só levam em conta a necessidade da produção e o uso
máximo da máquina, com toda a escravidão que isso comporta,
trabalho em série ou divisão indefinida do trabalho. A orientação
continua sendo a submissão do homem ao seu trabalho. Pode-se
tornar essa submissão mais fácil, mais agradável: mas são a
máquina e a produtividade que comandam.
Um dos grandes destaques feitos pelo autor foi à técnica da
Propaganda. A técnica torna-se científica com a revolução russa
de 1917 e em seguida com o hitlerismo. Pela ação da propaganda
ocorre um verdadeiro fenômeno de transferência psicanalítica. Logo
após destaca a técnica da diversão, com ênfase ao cinema. A
condição criada pela técnica supõe essa evasão especial que a
técnica lhe oferece. Cita também o rádio, que protege o homem
contra o silêncio, o mistério...o distrai. Paulatinamente o estudo
avança até chegar à análise dos “ecos”, das conseqüências
da dominação por essas técnicas. Percebe-se, em vários pontos do
texto, o discurso ambivalente do processo tecnológico, alguns prós
e muitos contras.
A angústia de Ellul apresenta-se
claramente no trecho em que ele fala da dissociação do homem pelas
técnicas. Os gestos e atos se tornam tão automatizados que não são
mais percebidos pelos próprios atores.
Heidegger nos ajuda a refletir sobre o que o autor coloca em sua
obra, caracterizando nosso tempo pelo projeto que o movimenta e de
acordo com o qual “tudo que acessível à experimentação e por
ela controlável deve ser submetido ao cálculo” (Heidegger, 1984:
p.87). Para ele, verifica-se no final do século passado o
acionamento de um projeto de mundo cuja caracterização fundamental
é a criação e recriação de processos em termos passíveis de
comando, através da produção, cálculo, transmissão e recepção
de informações. A percepção de
que a condução dos processos sociais poderia ser feita por meio da
persuasão publicitária ou campanhas propagandísticas representa um
intervalo fraco em um projeto mais profundo e ambicioso, cujo sentido
é controla-los pela modelagem material de um novo tipo de ser
humano, como deixam claro aliás os escritos de Norbert Wiener
(Breton, 1995).
Assim sendo, a manipulação dos indivíduos, descrita por Ellul já
não é tão fácil de acontecer.
Conforme observa Heidegger, o pensamento cibernético que está em
vias de se impor em nossa época é a culminação do cálculo como
modo de ser do homem e é correlato “ a idéia de que a liberdade
do homem pode ser determinada como algo planificável, isto é,
controlável. Durante certo tempo Heidegger pensou que o computador
possuía um sentido puramente técnico; ou seja, sem conteúdo
hermenêutico, mas logo chegou à conclusão de que o cálculo que
nele se efetiva agencia um sentido, o da conquista
planetária, incluindo a do próprio ser humano, por mais que
o mesmo, nesse âmbito, sobreviva latente um potencial criativo, “que
é bem outro do que aquele do cálculo que hoje em dia, por toda a
parte, mantém tenso o pensamento”.
Para Heidegger a sociedade tecnológica assume contornos em que
apenas o cálculo entre meios e
fins “parece conceder ao homem a possibilidade de habitar o
mundo técnico (maquinístico) que se impõe sempre de modo mais
decisivo”.
Concluindo, podemos nos perguntar se as técnicas, principalmente
hoje as de informação e comunicação, cada vez mais rápidas,
curtas e urgentes, não se associam à emergência
de um pensamento cada vez mais indiferente à consistência, presença
e observância consciente e refletida de princípios de construção,
que regiam a figura do objeto em nossa cultura. O mundo parece ser
vivido como um conjunto de sensações fluídas e em trânsito, no
qual toda a presença objetiva tende a se dissolver no elemento
líquido da imagem e do movimento.
Ninguém de são juízo endossará por completo teoricamente as
palavras de Ellul, contudo conviria que não fechemos os olhos e que
possamos ver com clareza e atitude crítica esses acontecimentos de
natureza epocal, com interesse na liberdade e independência
intelectual.
Santaella evoca sobre o desafio pós-humano em vir a ser.Nogueira assegura que a máquina enriquece e modifica o homem.Penso que a máquina enriquece o homem em aguçar mais a sua inteligência em criar a máquina com conhecimento e modifica o seu modus vivendi, então essa nova postura é estar sendo.Na prática docente isto se configura, a medida em que novos saberes, saberes didáticos,tecnológicos vão sendo utilizados, a transformação dessa prática vai sendo construída, reconstruída,num movimento cíclico em estar sendo..., não pode parar o processo de aprendizagem.
ResponderExcluirNogueira contextualiza que"toda realização técnica engendra suas justificativa ideológicas.Haraway afirma que "a libertação depende da construção da consciência da opressão [....]" e que os ciborgues tiveram três quebras de fronteiras cruciais- humano-animal,animal-humano e pode se dizer, o material e o virtual. "O ciborgue é experiência vivida".Indago que ideologia está por trás da técnica que move a cibercultura? A cibercultura é uma dominação ou libertação e ou liberação para uma nova cultura científica? Como vamos conviver com a cibercultura na escola se ainda a que prevalece é a cultura oral? É desafiante esse momento para a prática docente em descobrir nesses dualismos o caminho para uma educação de qualidade.
ResponderExcluirMuito pertinente suas reflexões, Naiola. De fato na perspectiva de Feenberg a cibercultura vive um novo momento político, filosófico;em que ela (a cibercultura) aberta e incontrolável não se constitui uma dominação, mas, sobretudo, uma perspectiva de construção de uma nova cultura científica, social e cultural. Dessa nova realidade, emerge a necessidade de apropriação da técnica, de forma democratizada, uma vez que, podemos atribuir-lhe um significado social. A escola vive, sim, um momento de conflito, pois em meio a esse dualismo, ela não pode mais ficar como espectadora ou coadjuvante. A escola é desafiada a assumir um papel mais ativo nesse cenário sociopolítico- cultural-cibernético.
ExcluirÓtimas e múltiplas questões! Vejamos a primeira, que ideologia está por trás da técnica que move a cibercultura? A partir do conceito de "racionalização subversiva" de Feenberg, podemos pensar em uma ideologia menos totalizante e que abre possibilidades para que o social (nós, seres humanos) possamos nos apropriar (a agência humana de Feenberg) das tecnologias (produções e usos "livres") para fins "válidos" em esfera planetária, também a partir das perspectivas de glocalização.
ResponderExcluir