quarta-feira, 15 de maio de 2013


Texto produzido pelo aluno ouvinte Paulo Roberto Melo de Castro Nogueira ao cursar a disciplina em 2008

A TÉCNICA E O DESAFIO DO SÉCULO
JACQUES ELLUL

RESENHA CRÍTICA


A obra “A Técnica e o Desafio do Século” trata sobre as técnicas que se dirigem diretamente ao homem e que se constituíam para muitos, na época em que o autor escreveu, 1954, no objeto das grandes descobertas, das grandes esperanças.
Para o autor, filósofo, sociólogo, teólogo e anarquista cristão, Jacques Ellul, nascido em Bordeaux, na França, em 6 de janeiro de 1912 e falecido em 19 de maio de 1994, pode-se resumir dizendo que a técnica comporta sua própria ideologia, e que toda realização técnica engendra suas justificações ideológicas. Acredita que por meio de uma modificação psicológica, pode-se, pois, ao mesmo tempo, tirar do homem um maximum e conseguir que suporte alegremente os inconvenientes do mundo - primeiro objetivo das técnicas psicológicas. Trata-se de obter um rendimento. É a lei técnica e este rendimento só pode ser obtido pela mobilização total do homem, corpo e alma, o que supõe uma mobilização de suas forças psíquicas.
A técnica já penetrou profundamente no homem. O homem é feito para seis quilômetros à hora e faz mil. O autor observa adiante que a máquina ao mesmo tempo enriquece o homem e o modifica. Os sentidos e os órgãos da técnica multiplicaram os sentidos e os órgãos do homem. O estudo feito por Ellul analisa que a técnica modificou também o tempo dos homens. O tempo, que era medido pelas necessidades e acontecimentos, torna-se abstrato e separado dos ritmos da vida e da natureza, passa a ser dividido em horas, minutos e segundos. A massificação da sociedade provoca um clima de ansiedade e de insegurança, característico da época e das neuroses vividas. Porém, a proposta de humanização das técnicas passou a levar o homem em conta para que o mesmo não seja esmagado pela técnica.
Os experimentadores encontraram um campo de ação particularmente notável para a experimentação técnica: o exército. No exército os laços sociais que se formam são originais, a coletividade a estudar pode ser apreendida desde o começo e é cômodo para estudar, para acompanhar o dia a dia. Ao mesmo tempo, as experiências feitas servem a um duplo fim: de início, influenciam-se diretamente os homens que estão no exército e estes transportam para a vida civil a marca que receberam.
Procura-se também, naquele momento, desenvolver uma nova pedagogia, uma série de técnicas, chamadas técnicas da escola nova. Um dos fatores profundos dessa educação será, a melhor adaptação possível à sociedade, apesar de todas as declarações possíveis não é a criança em si mesma, e para ela mesma que é formada: é a criança na sociedade e para a sociedade. Não se trata de uma preparação para uma sociedade ideal, mas para a sociedade tal como existe.
A técnica do trabalho é percebida também nos modelos Taylorista e Fordiano, que só levam em conta a necessidade da produção e o uso máximo da máquina, com toda a escravidão que isso comporta, trabalho em série ou divisão indefinida do trabalho. A orientação continua sendo a submissão do homem ao seu trabalho. Pode-se tornar essa submissão mais fácil, mais agradável: mas são a máquina e a produtividade que comandam.
Um dos grandes destaques feitos pelo autor foi à técnica da Propaganda. A técnica torna-se científica com a revolução russa de 1917 e em seguida com o hitlerismo. Pela ação da propaganda ocorre um verdadeiro fenômeno de transferência psicanalítica. Logo após destaca a técnica da diversão, com ênfase ao cinema. A condição criada pela técnica supõe essa evasão especial que a técnica lhe oferece. Cita também o rádio, que protege o homem contra o silêncio, o mistério...o distrai. Paulatinamente o estudo avança até chegar à análise dos “ecos”, das conseqüências da dominação por essas técnicas. Percebe-se, em vários pontos do texto, o discurso ambivalente do processo tecnológico, alguns prós e muitos contras.
A angústia de Ellul apresenta-se claramente no trecho em que ele fala da dissociação do homem pelas técnicas. Os gestos e atos se tornam tão automatizados que não são mais percebidos pelos próprios atores.
Heidegger nos ajuda a refletir sobre o que o autor coloca em sua obra, caracterizando nosso tempo pelo projeto que o movimenta e de acordo com o qual “tudo que acessível à experimentação e por ela controlável deve ser submetido ao cálculo” (Heidegger, 1984: p.87). Para ele, verifica-se no final do século passado o acionamento de um projeto de mundo cuja caracterização fundamental é a criação e recriação de processos em termos passíveis de comando, através da produção, cálculo, transmissão e recepção de informações. A percepção de que a condução dos processos sociais poderia ser feita por meio da persuasão publicitária ou campanhas propagandísticas representa um intervalo fraco em um projeto mais profundo e ambicioso, cujo sentido é controla-los pela modelagem material de um novo tipo de ser humano, como deixam claro aliás os escritos de Norbert Wiener (Breton, 1995).
Assim sendo, a manipulação dos indivíduos, descrita por Ellul já não é tão fácil de acontecer.
Conforme observa Heidegger, o pensamento cibernético que está em vias de se impor em nossa época é a culminação do cálculo como modo de ser do homem e é correlato “ a idéia de que a liberdade do homem pode ser determinada como algo planificável, isto é, controlável. Durante certo tempo Heidegger pensou que o computador possuía um sentido puramente técnico; ou seja, sem conteúdo hermenêutico, mas logo chegou à conclusão de que o cálculo que nele se efetiva agencia um sentido, o da conquista planetária, incluindo a do próprio ser humano, por mais que o mesmo, nesse âmbito, sobreviva latente um potencial criativo, “que é bem outro do que aquele do cálculo que hoje em dia, por toda a parte, mantém tenso o pensamento”.
Para Heidegger a sociedade tecnológica assume contornos em que apenas o cálculo entre meios e fins “parece conceder ao homem a possibilidade de habitar o mundo técnico (maquinístico) que se impõe sempre de modo mais decisivo”.
Concluindo, podemos nos perguntar se as técnicas, principalmente hoje as de informação e comunicação, cada vez mais rápidas, curtas e urgentes, não se associam à emergência de um pensamento cada vez mais indiferente à consistência, presença e observância consciente e refletida de princípios de construção, que regiam a figura do objeto em nossa cultura. O mundo parece ser vivido como um conjunto de sensações fluídas e em trânsito, no qual toda a presença objetiva tende a se dissolver no elemento líquido da imagem e do movimento.
Ninguém de são juízo endossará por completo teoricamente as palavras de Ellul, contudo conviria que não fechemos os olhos e que possamos ver com clareza e atitude crítica esses acontecimentos de natureza epocal, com interesse na liberdade e independência intelectual.  

4 comentários:

  1. Santaella evoca sobre o desafio pós-humano em vir a ser.Nogueira assegura que a máquina enriquece e modifica o homem.Penso que a máquina enriquece o homem em aguçar mais a sua inteligência em criar a máquina com conhecimento e modifica o seu modus vivendi, então essa nova postura é estar sendo.Na prática docente isto se configura, a medida em que novos saberes, saberes didáticos,tecnológicos vão sendo utilizados, a transformação dessa prática vai sendo construída, reconstruída,num movimento cíclico em estar sendo..., não pode parar o processo de aprendizagem.

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  2. Nogueira contextualiza que"toda realização técnica engendra suas justificativa ideológicas.Haraway afirma que "a libertação depende da construção da consciência da opressão [....]" e que os ciborgues tiveram três quebras de fronteiras cruciais- humano-animal,animal-humano e pode se dizer, o material e o virtual. "O ciborgue é experiência vivida".Indago que ideologia está por trás da técnica que move a cibercultura? A cibercultura é uma dominação ou libertação e ou liberação para uma nova cultura científica? Como vamos conviver com a cibercultura na escola se ainda a que prevalece é a cultura oral? É desafiante esse momento para a prática docente em descobrir nesses dualismos o caminho para uma educação de qualidade.

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    1. Muito pertinente suas reflexões, Naiola. De fato na perspectiva de Feenberg a cibercultura vive um novo momento político, filosófico;em que ela (a cibercultura) aberta e incontrolável não se constitui uma dominação, mas, sobretudo, uma perspectiva de construção de uma nova cultura científica, social e cultural. Dessa nova realidade, emerge a necessidade de apropriação da técnica, de forma democratizada, uma vez que, podemos atribuir-lhe um significado social. A escola vive, sim, um momento de conflito, pois em meio a esse dualismo, ela não pode mais ficar como espectadora ou coadjuvante. A escola é desafiada a assumir um papel mais ativo nesse cenário sociopolítico- cultural-cibernético.

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  3. Ótimas e múltiplas questões! Vejamos a primeira, que ideologia está por trás da técnica que move a cibercultura? A partir do conceito de "racionalização subversiva" de Feenberg, podemos pensar em uma ideologia menos totalizante e que abre possibilidades para que o social (nós, seres humanos) possamos nos apropriar (a agência humana de Feenberg) das tecnologias (produções e usos "livres") para fins "válidos" em esfera planetária, também a partir das perspectivas de glocalização.

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